Narrativas Transmídia e o paradigma Nolan

Narrativa Transmídia, ou Transmedia Storytelling. O conceito abordado por Henry Jenkins no livro já amplamente comentado Cultura da Convergência é vivenciado amplamente por usuários/consumidores de informação e produtos, sobretudo os culturais, na era da informação digital.

Para exemplificar este formato de construção de produtos “convergentes”, Jenkins resgata Matrix. A película (?), de 1999, é tida por ele como uma das mais significativas produções do gênero, que basicamente se compõe a partir de fragmentos dispersos em vários momentos e mídias (cinema, internet, mobile etc) que, ao final, formam um único universo, responsável por dar ao público uma experiência mais sensacionalista (não no sentido negativo, mas o de sensações) da complexidade, e totalidade, da obra.

Particularmente acredito que Star Wars tenha sido a obra de Narrativa Transmídia mais bem sucedida. De sua concepção e lançamento original, já recheado de quadrinhos, camisetas e toda a base de produtos que caracterizariam o cânone para acervos fanboy, aos mais recentes lançamentos de três grandes produções, completadas por animações, jogos de vídeo-game e toda a miríade de movimentos sociais (que incluem redes digitais ou encontros de fantasia), é inquestionável que a criação de George Lucas tenha rompido a barreira cinematográfica em si para tomar de assalto todas as possibilidades midiáticas.

Star Wars é ainda um exemplo de ciclo comum nestas narrativas, com história, personagens e públicos bem definidos levando à criação espontânea de novos conteúdos, que, por sua vez, geram subprodutos e novos pontos de venda. Os fãs da franquia compram a brincadeira muito bem, e, para quem os conhece, sabe que na hora de investir em um Sabre de Luz, ou simples máscara de Darth Veder, grana não é o problema e o marketing de “valores” fala mais alto.

Entretanto, a recente leitura da obra de Jenkins, em paralelo a uma incursão ao cinema para conferir a recente produção de Christopher Nolan, Inception (A Origem), me trouxeram à tona questionamentos sobre a aplicabilidade (necessária ou não) das narrativas transmídia. Seria mesmo a melhor estratégia pensar sempre em universos que se expandiriam para várias mídias, afim de viabilizar produtos de longa duração? Até quando a narrativa fragmentada pode cativar uma audiência sedenta por imediatismos e obras de rápida digestão?

Embora não tenha demorado as décadas de Lucas para “concluir” sua obra, Nolan trabalha com A Origem desde 2001, ocasião em que apresentou a executivos da Warner um tratado sobre ladrões de sonhos. Em geral dando-se por satisfeito, o público que assiste à obra sabe muito bem que a narrativa termina ali, na sala de cinema mesmo, sem necessidade de desdobramentos futuros. É um filme inteligente, que inquestionavelmente pode gerar um gap de reflexão, mas seria desnecessário assistir a animações ou jogar um console para compreender o que se passa no enredo? Acredito que não.

Vale lembrar ainda que o mesmo Nolan adota postura totalmente oposta ao dirigir a famigerada figura de Batman, com Begins e The Dark Knight. Como se sabe, a franquia se desdobrou em jogos, animações, ações virais (ARG’s) e todo o universo possível de suportes transmídias.

Em tempos de inteligência coletiva e estratégias de marketing de entretenimento cada vez mais agressivas, não raramente somos pegos de surpresa (em alguns casos de forma assustadora, como no Chatroulette). É necessário essa sobreposição mercadológica de narrativas transmídias? Para cada filme que se lança, pelos menos outros tantos subprodutos são ofertados. Neste sentido, A Origem mostra que ainda é possível a subsistência de obras em seus próprios limites, sem apelos megalomaníacos e estratégias mirabolantes de divulgação e captação de atenção, às vezes involuntária.

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